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Quanto vale uma obra de arte?

Continuando e transgredindo.

 

Cá continuo, então, sentado à minha secretária, hoje já rompeu o sol, tudo parece já mais animador. É por isso que hoje já vejo o assunto sobre que estava a discorrer com mais clarividência.

 

No dia 3 de Janeiro deste recalcitrante ano de 2014, o Jornal de Notícias, que já nos obrigou a conformar com o insólito, saiu à rua com uma notícia inesperada. ‘’Quadro milionário de Josefa d’Óbidos destruído por incúria’.

 

Bem, era inesperado que um quadro de Josefa d’Óbidos fosse destruído por um incêndio nas condições em que foi, sem dúvida. Mas mais inesperado era, à partida e tendo em referência o bom senso elementar, que um quadro de Josefa d’Óbidos fosse, para mais na circunstância, denominado e apresentado à opinião pública e ao leitor incauto com um ‘’quadro milionário’’.

 

A ideia que se transmitia, foi pelo menos a impressão com que fiquei, era a de que era tão relevante a perca dos milhões como a do quadro, embora a correspondência dos milhões com o quadro fosse uma conjectura estipulada por um avaliador, na presunção de que, em última instância, se houvesse que reduzir o quadro a milhões, o mercado apresentar-se-ia soberano.

 

O valor estipulado para o quadro era setenta mil Euros, não sabemos se em inventário de bens ou em apólice de seguro.

 

Bem, ontem servimo-nos de pretexto, ou contexto para reflectir sobre esta questão de um retrato pintado por Francisco Goya de seu neto Mariano, que foi adquirido por um museu dos Estados Unidos da América por uns modestos oito milhões de Euros.

 

Quanto vale então uma obra de arte, em que circunstâncias e porquê?

 

Vou iniciar a minha reflexão abordando um assunto que todos, alucinados pelas ideias que o soberano mercado vai difundindo, se conformam em aceitar como um drástico ditame. Um bem cultural ou artístico classificado vê, sem apelo nem agravo, o seu valor mercantil diminuído.

 

Não seria necessário proceder à demonstração, removendo a classificação que recaía sobre ‘’A Sagrada Família’’ de Josefa d’Óbidos antes que o incêndio o tivesse tragado, para constatar que nem todos os bens veriam o seu valor diminuído por serem classificados, mesmo aceitando que é da classificação que advém perda de valor mercantil.

 

Não me parece ser contestável que a pintura em causa só em condições muito excepcionais e sempre hipotéticas poderia valer, em Nova Iorque, Paris, Londres ou mesmo Madrid setenta mil euros, tendo em referência os valores alcançados por pinturas francesas, inglesas, ou espanholas a que o mercado, na sua soberania, atribui um estatuto similar.

 

Não vou insistir em invocar aqui o caso, ou casos, em que alguns intervenientes no mercado tentaram incorporar valor mercantil num bem artístico promovendo a sua classificação, como foi o de um tal ‘’caquesseitão’’ que, por não ter sido conseguida a sua classificação, não foi adquirido pelo Estado pelo triplo do valor por que foi vendido em Londres, após autorizada a sua expedição.

Constato apenas que, para superarmos os limites da hipocrisia com que este assunto é por norma tratado pelo mercado, devemos proceder a uma reflexão sobre as circunstâncias em que se estabelece o valor mercantil de uma obra de arte.

Ponderar sobre o valor de uma obra de arte centrados no valor mercantil poderá denotar um espírito perverso, sem dúvida.

 

Mais do que setenta mil euros, perdeu-se no Buçaco uma obra de referência para a estética, a cultura e a história da arte portuguesa, que nenhuns setenta mil euros poderão repor.

 

É sem dúvida a expressão liminar da obscena brejeirice do nosso jornalismo, do estado deplorável em que a bitola média da cultura dos portugueses mergulhou, o facto de um dos jornais com maior circulação em Portugal anunciar assim a perda irreparável de um bem cultural.

 

Regressemos à pintura sobre que reflectíamos ontem. Ao lermos com toda a atenção e rigor a informação que foi difundida, só podemos concluir que o retrato de Mariano Goya só pôde alcançar o valor de oito milhões de dólares porque o Museu do Prado não se interessou pela sua aquisição. Se a pintura interessasse ao Museu do Prado, a pintura terá sido adquirida na primeira sessão em que foi apresentada e de que foi retirada, por cerca de cinco milhões. O mínimo que se poderia dizer seria que o Museu do Prado interferiu de forma óbvia e conclusiva no valor mercantil da pintura, ao manifestar, com alguma sobranceria e menosprezo, desinteresse.

 

Eu não consigo reprimir um comentário. Sendo óbvio e mais do que constatado que a leiloeira Sotheby’s e o Museu do Prado têm por norma os seus interesses mercantis coordenados, deduzindo mesmo o que parece ser a estratégia mercantil do Museu do Prado através da orientação de Manuela Mena e da forma como estabelece a valoração relativa da obra de Goya, não seria extrapolação se sugeríssemos que o Museu do Prado interfere astutamente nos procedimentos mercantis para estipular, em cada momento, o valor da pintura de Goya. E de outros autores.

 

Tomar com um dado irreversível de um fatídico destino que seja o mercado soberano a estipular, em cada circunstância e no âmbito do interesse circunstancial dos seus agentes, o valor de uma obra de arte levanta-nos problemas éticos relevantes. E o primeiro é, sem dúvida, o de que nem todos os sujeitos se encontram, como legítimos proprietários de um bem cultural ou artístico, face às mesmas oportunidades, possuindo embora bens de valor supostamente equivalente.

 

Quais as restrições éticas a estipular para a soberania do mercado?

 

Uma sociedade que remete o valor dos bens culturais e artísticos, predominantemente, para o seu âmbito mercantil, não pode depois alegar que esta questão distorce a problemática do valor. Uma sociedade que se relaciona com a cultura como com qualquer mercadoria, ponderando no âmbito do seu peso no PIB, não pode desvalorizar a obra de arte com referência a relativismos.

 

Toda uma série de questões que urge revisitar sem preconceitos nem hipocrisias.

 

É então caso de deixarmos para a seguinte nota esta questão, que me parece de facto crucial:

 

A que critérios recorreu, que referências invocou, de que dados comparativos se socorreu, quem atribuiu à ‘’Sagrada Família’’ de Josefa d’Óbidos o valor de setenta mil Euros, sabendo nós que no mercado o valor de referência alcançado pela obra da pintora oscila entre 166.000.00 Euros, uma ‘’natureza morta’’ vendida pela Leiloeira Correio Velho, e 40.000.00 Euros, uma ‘’Natividade’’ vendida pela leiloeira Cabral Moncada?

 

Um amigo meu fotógrafo divulgou durante os últimos dias um registo da pintura de Josefa d’Óbidos sinistrada no ambiente em que se encontrava, no Buçaco.

Aqui fica. Porque, com base nas reflexões que este registo nos suscita, ainda visitaremos outras questões relevantes.

 

"Sagrada Família", de 1664, da autoria de Josefa d'Óbidos

(Fotografia de Inácio Silva)

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